Thunder Road e a tragicomédia da vida

Uma lição valiosa e encantadora e uma história emocionante por trás da produção dela.

Entre as gemas escondidas desse ano, uma das mais notáveis com certeza é Thunder Road. Inspirado na música de mesmo nome do renomado Bruce Springsteen (que pessoalmente deu o aval para sua música ser usada), foi escrito, dirigido, editado e atuado por um só homem, Jim Cummings, e traz a história de um policial que tem de lidar com a morte da mãe e com o distanciamento da filha.

Com apenas uma hora e meia de duração, atingiu o cinema desse ano com a força de uma avalanche. Indicado no renomado Film Independent Spirit Awards por melhor filme com baixo orçamento e ganhador de prêmios por cidades como Nashville e a francesa Deauville, o longa pode estar sob os radares de muitos ainda, mas que sorte terão os que assisti-lo…

Mais do que uma história fantástica sobre paternidade, luto e esperança, Cummings trouxe ao mundo do trabalho independente uma perspectiva muito necessária sobre  inspiração e perseverança ao trazer à vida sua produção das formas mais inesperadas e inovadoras. Antes de dar uma olhada no filme, é bom se maravilhar com as lutas e vitórias para fazer tudo acontecer.

Jim Cummings, após sair da faculdade de cinema, não embarcou diretamente nesse mundo, afinal não é nada fácil. Porém, após 6 anos em um trabalho que não gostava de exercer e a motivação para fazer algo seu à mil, Jim o fez. O resultado: um curta chamado Thunder Road, de duração de 12 minutos, que, para surpresa e maravilhamento de Jim, ganhou o Grand Jury Prize em Sundance, em 2016. A partir daí, seis outros curtas foram produzidos. Em certo momento, ele se perguntou: e agora? Era, então, hora de sonhar grande.

Voltando ao seu primeiro e amado trabalho, teve a ideia de expandi-lo e transformá-lo em um filme. Assim nascia o Thunder Road de 2018, que cativa os olhares de críticos, entusiastas e vem como uma onda de possibilidades maravilhosas para todos aqueles que um dia sonham em fazer seus próprios filmes.

Mas Jim, obviamente, teve ajuda. Afinal, um filme não sai do papel sem dinheiro (e muito). Abandonando a busca por uma grande produtora que distribuísse seu filme, ele fez isso sozinho. Sua grande e inovadora jogada foi o apoio nas redes sociais: criou uma página no Kickstarter, um site que arrecada fundos para a projetos criativos, e conseguiu cerca de 36 mil reais. 

Somando-se a doações e até a ajuda de Sundance, o orçamento chegou a 200 mil reais. Com a ajuda de 5 produtores e amigos e uma equipe que chegava a 40 pessoas, o filme podia finalmente sair do papel. Saiu em apenas 14 dias (contando com mais 4 dias de edição). E, de volta às redes sociais, ele foi do Reddit ao Facebook fazendo campanhas e juntando quem julgava gostar do filme — fazendo publicidade para pessoas com gostos similares ao do filme, como Manchester by the Sea (2016) e a série This is Us (2016). Surpreendentemente, o longa conseguiu seu dinheiro de volta em um final de semana e, no total, arrecadou 355 mil dólares.

A partir daí, apenas maravilhas: sendo elogiado e citado como um dos melhores filmes do ano e disponível online, a película continua cativando muitos por aí. Jim permanece maravilhando as pessoas em todo lugar. Quem vê a indústria cinematográfica por fora, a enxerga como feita apenas por grandes mandachuvas, os que ditam as regras e no qual só é possível entrar se você tiver muito dinheiro, muitos contatos e muita persuasão. Thunder Road vem para quebrar esses paradigmas.

Constantemente no Twitter incentiva as pessoas a fazerem seus filmes com o que possuem e acreditarem no seu potencial. Sempre repetindo mantras como “do it yourself” (“faça você mesmo”) e guiando diversos diretores iniciantes, seu otimismo e força de vontade fazem do longa um exemplo de força e maravilha que se alastra pelo mundo das obras independentes com uma força inabalável. Ao lado de Jim Jarmusch e Noah Baumbach, ele se estabelece mais e mais como um dos mais focados, brilhantes e determinados diretores independentes norte-americanos.

Jim Cummings e seus colegas de trabalho.

Não bastando a história sensacional por trás do trabalho, o filme em si é tão fantástico e avassalador quanto. Seguindo a vida de Jim Arnaud, o longa abre com uma das melhores cenas de 2018 — a mesma do curta, o momento da eulogia no velório de sua mãe. Nessa cena de aproximadamente 10 minutos, repleta de estranhamentos e momentos desconfortáveis, Jim já mostra sinais de estar desabando desde o começo.

Sempre parecendo estar a beira das lágrimas, o número de vezes que Jim perde a cabeça e desgarra em surtos longos, emotivos e desconfortavelmente hilários não pode ser contado. O policial começa a perceber a falta que sua mãe faz e se afoga em arrependimentos e mágoas. Ao não se perdoar por não ter dado a devida atenção ao seu porto seguro (assim como todos nós, quando caímos na inevitabilidade da rotina), sua confusão de sentimentos sempre vem com uma tonelada de raiva consigo mesmo.

Isso é o que acontece quando você perde alguém que assumia sempre ter por perto — a perda de uma mãe, o afeto de uma filha. E não é bonito: é cheio de fúria, explosões e uma imensa tristeza.

Pouco a pouco, vamos descascando as caricaturas desse personagem que, inevitavelmente, logo nos apegamos tanto. Jim, profundo, sensível e gentil; mas muito, muito perdido. Sua raiva sempre serviu para esconder seus sentimentos; seu trabalho, que sempre o coloca em contato com situações estressantes onde precisa mostrar seu lado mais duro, o ensinou que, como o mesmo disse no filme, “falar dos próprios problemas nunca ajudou ninguém” — e assim, tudo que está guardado em seu peito agoniado sai em forma de avalanches que não conseguem ser paradas.

Em sua procura por uma resolução, por um ponto de paz, Jim caminha, tropeçando, pelos sentimentos confusos da vida. E enquanto tenta superar uma dor insuperável, reconquistar o amor de sua filha que cada vez mais fica longe de seu abraço e lidar com tudo que já escondeu, ele percebe a necessidade de, sim, falar dos próprios problemas e contar com os amigos que o amam.

A última cena, tão memorável e maravilhosa quanto a primeira, fecha a obra com chave de ouro. Cummings consegue andar pela linha tênue entre risadas e choros com maestria e perfeita manipulação. O resultado é majestoso. Um profundo filme sobre perder uma mãe e ser um pai que vai além de tocar seu coração e deixa um sentimento imenso de alívio e felicidade com a última cena de arrancar lágrimas e soluços.

Thunder Road veio como um presente para 2018 e para quem precisa exumar os fantasmas do luto, remorso e tristezas que, eventualmente, nos afogam. À ele, por trazer uma história tão intensa e honesta ao cinema apesar de tantos pesares, meus mais sinceros obrigada!

“Hey, what else can we do now?

Except roll down the window and let the wind blow back your hair

Well, the night’s busting open, these two lanes will take us anywhere

We got one last chance to make it real

To trade in these wings on some wheels

Climb in back, heaven’s waiting on down the tracks”.

— Bruce Springsteen, Thunder Road.

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