Os Iniciados: carta aberta sobre os efeitos da masculinidade tóxica

O historiador e crítico de arte Hal Foster diz que o primitivo é um problema moderno, “uma crise na identidade cultural”. Isso é colocado em xeque no longa e nos evidencia uma narrativa que não encontra-se tão distante de uma problemática atual. Qual gay nunca se bateu com um “discreto”, “sigiloso”, e “fora do meio” em aplicativos de encontro, como: Grindr, Hornet, Scruff dentre outros, não é mesmo? No entanto, Os Iniciados é uma obra que traz à tona questões pertinentes ao que se entende como “ser masculino”, bem como pontos discutíveis entre homossexualidade e sexo.

O território é africano. A narrativa se desenrola a partir de um dos protagonistas em seu local de trabalho, cenário industrial perfeito para ambientar o longa na atualidade. Somos apresentados a Xolani (Nakhane Touré), um rapaz de vida pacata que esconde do mundo a homossexualidade. Conhece Vija (Bongile Mantsai) desde pequeno, com quem mantém um caso em segredo, encontrando-se às escondidas pelos arredores da montanha sempre que há jovens para auxiliar em um  processo tradicional.

Xolani, assim como Vija e tantos outros instrutores, também experimentaram o Ulwaluko (link com imagens fortes), um “ritual de passagem para a vida adulta masculina”. À repetição de “eu sou homem”, os iniciados são circuncidados sem auxílio médico e anestesia, obrigados a mostrar que são capazes de aguentar aquela dor, afinal de contas, se tornarão homens. Não há espaço para fragilidades, mas algo curioso acontece durante a história. Um dos adolescentes, Kwanda (Niza Jay), enviado pelo pai à montanha por ser “mole e sensível demais” logo desconfia do romance entre os protagonistas.

Quando o pai de Kwanda diz para Xolani que a culpa de seu filho “ser assim” é da sua mãe, nos evidencia o machismo ainda enraizado naquela cultura — e na nossa. O papel dele, neste sentido, seria o de corrigir “o erro” feminino enviando o primogênito para experimentar o ritual violento na tentativa de torná-lo mais viril, isto é, um macho de verdade. São por estes estereótipos masculinos que o longa se cerca, denunciando a forma pela qual tradições são mais respeitadas do que a própria dignidade humana.

É uma prova disso o fato de o filme dirigido por John Trengove ter sido recebido pela África do Sul com recusa e indignação — traços fortes da homofobia. A película foi semi-finalista na indicação para o Oscar 2018 na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”. O interessante é perceber que essa repulsa ainda ocorre mesmo que a nação de Nelson Mandela tenha sido o primeiro país africano a legalizar o casamento homossexual.

Cena de Os Iniciados

Mas, voltando ao filme, podemos definir o jovem rebelde Kwanda como o antagonista dessa obra grandiosa. Aqui, não no sentido de ser um vilão com temperamento hostil que gera contendas, caos, e mortes por onde passa, mas como um elemento chave que incentiva o protagonista da história a ser o que ele precisa ser questionando os códigos patriarcais, os quais o ensinam a reproduzir. É através dele que o conflito começa a respeito das tradições, principalmente quando se recusa a falar para o chefe da aldeia, assim como os outros, sobre a experiência e os aprendizados adquiridos durante as semanas em que esteve recluso.

Por o outro lado, o Ulwaluko tem sido uma grande oportunidade utilizada como justificativa para que Xolani possa encontrar seu amado em escapatórias na ruralidade das redondezas, uma vez que os dois residem em cidades diferentes da zona urbana. São nesses pequenos — porém grandiosos — momentos que eles se despem e se desnudam de uma masculinidade que apenas violenta o próprio ser, pois Vija parece não querer forçar um rompimento com a imagem do homem bruto, agressivo, provedor do lar a qual ele foi ensinado a construir.

As cenas de sexo entre os dois não são explícitas. É possível classificá-las até como poéticas. O modo que o nu é posto em tela não se faz apenas necessário para o contexto da história, mas também sintetiza as personalidades distintas dos dois amantes, evidenciando, dessa forma, a maneira como cada um lida com o corpo do outro e com a própria sexualidade. Enquanto que Xolani, no fundo, ainda guarda esperanças em eternizar uma vida a dois com seu amado, Vija esconde-se na capa do macho alfa e comedor de mulheres — entretanto, encontra a liberdade em um peito masculino.

No terceiro capítulo do livro “We Real Cool: Black Men and Masculinity”, Bell Hooks nos lembra que o corpo do homem negro é habitualmente visto como apenas um corpo negro não associado à intelectualidade, apenas à força braçal. A escravidão é um exemplo muito claro disso, onde a capacidade física dos indivíduos definiria o nível da sua subserviência. Mais ainda: com características bastante habituais, nos é mostrado que o pênis masculino, de certo modo, é colocado quase como uma divindade espiritual que capacita o homem a ser o que ele tem que ser: um homem.

Dessa forma, o longa evidencia a maneira pela qual os estereótipos machistas e sexistas têm se mantido na África do Sul. É também constantemente mantida a ideia de que homens, sobretudo negros, não amam. Muito menos se este sentimento for depositado em outro homem. Um estigma que fixa-se nas estruturas de uma sociedade racista, desejando mantê-los aos seus pés como seres subservientes de uma definição escravocrata.

Além de tudo isso, Os Iniciados também nos mostra o quanto essa masculinidade tóxica pode nos matar, pois estamos falando de uma obra cinematográfica que retrata a forma pela qual a sexualidade masculina, principalmente ao fato de ser gay e negro, tem sido tratada, e o que esse viés tradicional reflete na vida de homens não-heterossexuais.

De longe, o longa lembra produções como Brokeback Mountain (2005) e Moonlight — Sob a Luz Do Luar (2016) ao abordar uma temática homoafetiva, mas provoca despretensiosamente uma reflexão sobre a toxicidade da imposição de uma postura masculina. Sem a pretensão de ser uma grande obra, tornou-se uma. Confira no trailer abaixo.

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