Midsommar O Mal Não Espera a Noite é um potencial divisor de águas

Há alguns anos o terror não tem sido o mesmo. Algumas obras têm apostado em narrativas mais complexas, e menos em jump scares medonhos que causam apenas um susto. A época dos assassinos com sede de sangue de adolescentes (que estão bebendo ou fazendo sexo no lugar mais ermo da cidade) já passou, não que tenham perdido a importância para a construção do gênero como um todo. Afinal, foi por conta dessas obras que temos os excelentes A Bruxa (2015), Corra (2017), Nós (2019), e The Babadook (2014), por exemplo.

Chegamos em Midsommar – O Mal Não Espera a Noite, do diretor Ari Aster, que nos entrega uma obra que desperta um misto de emoções em seus 147 minutos de filme. O plot tem como protagonista Dani (Florence Pugh), que após um acontecimento traumático envolvendo os seus familiares, decide viajar para a Suécia com o namorado Christian (Jack Reynor) e os três amigos dele: Pelle (Vilhelm Blomgren), Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter). No país, eles participam de um festival na comunidade onde Pelle foi criado, mas quando os rituais e a cultura do pequeno local começam, não era exatamente o que eles esperavam.

O terror psicológico no qual somos expostos atordoa e mantém o espectador numa tensão constante, que contrastam perfeitamente com uma paisagem natural exuberante. Então surge o primeiro questionamento para os personagens do filme: “Afinal, o que pode acontecer de ruim num lugar como este?”. E dentro dessa perspectiva, também seguimos até a primeira exposição ao costume de um local.

Para os mais atentos a questões técnicas da linguagem cinematográfica, é possível notar o uso singular do som, atributo que Aster utiliza muito bem também em Hereditário (2018). O recurso sonoro é o fio condutor de momentos chave dentro da narrativa, na qual mescla a sonorização natural de árvores, por exemplo, com vozes humanas — vozes abafadas e com ecos também são artifícios de imersão para levar o espectador a camadas mais profundas dentro da história.

A atriz Florence Pugh explora um outro lado em sua atuação e mostra-se uma profissional extremamente versátil.

O roteiro, também assinado pelo diretor, toma decisões complicadas dentro da história. É muito mais preferível desenvolver a cultura, os costumes de como essa comunidade convive ou desenrolar as motivações, angústias das personagens expostas àquele local? Pelo visto, desenvolver a comunidade foi mais importante, exceto, é claro, pela protagonista. Contudo, ainda assim, os diálogos são construídos para gerar ainda mais curiosidade e surpresas.

Histórias com grupos de amigos que vão “desbravar” novas culturas dentro do gênero são tão comuns quanto os casais que acabam ficando juntos nas comédias românticas. Em Midsommar não é diferente, você sabe que alguma coisa ruim irá acontecer com aquele grupo, mas não sabe como, nem quando, mas você já imagina quem serão os algozes. Aster é ambicioso, e deixa diversas pistas dentro do cenário do que irá acontecer durante o Festival de Verão. Está tudo ali, escancarado nas paredes do quarto compartilhado.

O interessante é que no terceiro ato do filme nada acontece rápido demais, tudo é milimetricamente posto em cena, a fim de manter o espectador atônito até a última cena. Isso se dá, principalmente, pela construção lenta nos primeiros atos. Porém mesmo com a construção lenta da narrativa, não é cansativo acompanhar o desenrolar dos personagens.

O Mal Não Espera a Noite é sem rodeios, ele vai direto ao ponto e não precisa se apoiar em momento nenhum em subjetividades para a compreensão total da obra. Do easy ao hardcore do consumo do gênero, com certeza o filme irá agradar, afinal a narrativa tem um encerramento digno e com bastante pano na manga para uma conversa pós-sessão numa mesa de bar. Um divisor de águas no gênero de horror psicológico? Há chances que sim, mas adicione mais alguns anos a obra!

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