Bruna Surfistinha: Um doce veneno disparado há 7 anos

Uma dose de sensualidade, mais uma de depravação e um toque de sentimentalismo montaram, há sete anos, Bruna Surfistinha!

De tempos em tempos eu me dou ao luxo de revisitar grande obras nacionais para testar o meu próprio senso crítico e perceber novas nuances de narrativas, nuances estas que talvez eu não tenha conseguido captar por uma certa imaturidade pessoal e cinematográfica. O filme da vez foi Bruna Surfistinha (2011), que conta a história de Raquel Pacheco e a sua trajetória enquanto garota de programa na grande São Paulo.

O filme completou sete anos de lançamento neste 2018. A película adapta o livro homônimo “O Doce Veneno do Escorpião: O Diário de uma garota de programa”, de Raquel Pacheco. Na autobiografia, ela narra os principais acontecimentos da sua vida desde a saída da casa dos pais: o primeiro programa, o estrelato e, claro, a derrocada. E isso obrigatoriamente aparece na excelente adaptação cinematográfica, conduzida pelo estreante na época, Marcus Baldini. Mas o que percebemos durante a película é como o imaginário social acerca do sexo se comporta.

Bruna abre as portas e nos faz embarcar numa viagem quase psicodélica de prazer e sedução, que exibe os desejos mais profundos dos seus clientes, e que provavelmente não está muito longe da nossa própria realidade.

A obra na atualidade

Nos tempos em que se discute muito sobre sexualidade e o papel dela na construção social de cada indivíduo, o longa ainda aborda temas essenciais e totalmente atuais sobre o assunto, mesmo após quase 10 anos de existência. No vídeo publicado pelo canal oficial da TV Cultura no Youtube, do programa Provocações, ao olharmos os comentários podemos observar como a sociedade deslegitima o discurso produzido por Raquel, quando se considera uma mulher corajosa justamente por ter feito o que fez. Enquanto uns apoiam, outros preferem apedrejá-la — onde, supostamente, contam casos exemplos de si mesmo.

“Sexo por incrível que pareça cansa, quando há em excesso e eu me cansei! Eu sempre sonhei como aquele filme “Uma Linda Mulher”: de encontrar um homem bacana na prostituição que me tirasse daquela vida e acabei encontrando esse alguém” — Raquel Pacheco.

Indago, portanto, o seguinte: a prostituição é uma das profissões mais antigas da humanidade, sendo citada até na Bíblia, e independente da profissão, são seres humanos a frente disso. Mesmo assim, ainda há uma falta de empatia com as mesmas. As problemáticas são várias, contudo não é o tema central deste texto.

Várias questões surgem todos os dias sobre a sexualidade. Cada vez mais, as pessoas conseguem falar de forma mais “aberta” sobre esse assunto, o qual até há alguns anos era considerado tabu. Não que tenha deixado de ser, mas já existe um processo de desconstrução em relação a isso.

Apesar dos pesares, Bruna Surfistinha nos ensina muito sobre a nossa própria sexualidade e como devemos lidar com ela no decorrer da vida, que nossas escolhas nos levam por determinados caminhos. E isso indeferi orientação sexual, cor, raça ou religião, já que a própria Bruna disse em entrevistas e no próprio longa que “já viu de tudo”.

Deborah Secco literalmente distribui talento

Recentemente, a atriz Deborah Secco, a interprete de Bruna no filme, postou em seu Instagram uma foto com a tag “TBT” a fim de relembrar o seu papel. A atriz foi duramente criticada por uma fã, que disse: “Honra, sério? Retratar uma mulher drogada, prostituta e que não é absolutamente exemplo de nada?”. Contudo, a atriz prontamente respondeu a seguidora: “A arte não se faz retratando exemplos a seguir e sim histórias para se pensar. Aliás, a função de um filme desses é fazer pessoas imergirem no universo de pessoas diferente delas, para entender que o mundo vai além do nosso umbigo”, rebateu a atriz.

Secco, por sua vez, mostra toda a potencialidade da sua condição artística justamente nesse filme, onde passeia muito bem de uma garota sensível e fragilizada até se tornar a Surfistinha — quente, sensual, distribuidora de doces venenos.

Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha

Após rever esse filme, que ainda não saiu do imaginário nacional, posso afirmar com certeza que ele é sim muito importante, e conta a história de uma mulher naturalmente brasileira: guerreira, corajosa e que enfrentou o mundo completamente sozinha. Bruna Surfistinha vai muito além das cenas de nudez e sexo explícito, é um grito social ao livre arbítrio e ao sexo, mas com segurança! Por favor!

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