‘Coringa’ e a reimaginação de um ícone

A figura do Coringa é sem a menor dúvida a imagem mais conhecida e estranhamente reverenciada da cultura pop nos últimos anos. Fenômeno este causado por sua aparição em O Cavaleiro das Trevas (2008), vivida pelo ator Heath Ledger. Desde então, o personagem se tornou cada vez mais reconhecido dentro da cultura, até que culminou, em pleno 2019, com uma obra que supera qualquer expectativa.

Acompanhamos a história sob a ótica de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um comediante fracassado que trabalha como palhaço para lojas e onde for necessário que se tenha um. Aparentemente com problemas neurológicos, ele existe — ou ao menos tenta — em Gotham City. Com isso, convivemos com Arthur a sua trajetória até o ponto de virada em que ele se torna o Coringa.

A obra cinematográfica com assinatura de Todd Phillips, tanto no roteiro quanto na direção, é sem dúvidas um primor. A filmografia de Phillips, por outro lado, nos mostra — e consequentemente nos engana — como ele está relacionado com os filmes de comédia, já que dirigiu a trilogia Se Beber, Não Case (2009-2013) e o excelente Cães de Guerra (2016). Entretanto, com esse filme,ele embarca numa carga dramática até então nunca vista em sua filmografia ou em qualquer representação do icônico vilão.

O filme é repleto de pequenas sutilezas, as movimentações de câmera suntuosas demonstram isso, uma vez que temos proporcionalmente um roteiro e a atuação por parte de Phoenix que fazem jus. Em contrapartida, a estrutura de roteiro que nos é apresentada ao decorrer dos 122 minutos é bem parecida com algumas obras de Martin Scorsese, por exemplo.

A fotografia e a cuidadosa escolha da trilha sonora auxiliam o roteiro e aprofundam a personagem.

A divisão dos atos é bem demarcada pela direção de fotografia, que no primeiro ato utiliza planos mais fechados, tons mais frios e opacos, o que traz consigo um sentimento claustrofóbico impressionante. Todavia, no terceiro ato temos planos um pouco mais abertos, com tons mais quentes apresentando uma vivacidade mais interessante na libertação das amarras sociais de Arthur Fleck. A trilha sonora do longa também é responsável em narrar a trajetória emocional da personagem que varia de humor numa constância assombrosa.

A principal crítica que o filme trata é a irresponsabilidade do poder público para com a população de Gotham. No inicio do filme temos o contexto de uma greve de lixeiros, ocasionando que a cidade fique cada vez mais suja, com mais ratos, com mais doenças. As revoltas vão se acalorando até ocorrer o assassinato de três homens em posição de privilégio que trabalham nas Empresas Wayne.

A figura do palhaço vem ganhando cada vez mais força dentro da perspectiva de revolta e símbolo dos protestos para o poder público, justamente enquanto Thomas Wayne está concorrendo a prefeito da cidade. A figura do Coringa aqui não tem nada a ver com a política, ele vai na contramão disso tudo – apesar de estar sendo apoiado pelo povo – pois algumas de suas atitudes são egoístas, ou seja, satisfazem apenas os desejos pessoais do personagem.

A mudança de Arthur para Coringa não ocorre de forma abrupta, a construção da personagem tem seus motivos e está bem claro dentro do roteiro. As chaves vão sendo viradas de acordo com as situações. Contudo, as críticas à sociedade que não se importa com os menos favorecidos e de como eles se apoiam nisso para crescer, são um dos catalizadores para essa mudança.

Lembrando que é inevitável que aconteçam comparações com a atuação de Ledger, porém é importante salientar que são obras totalmente distintas, são visões completamente diferentes do mesmo personagem. Comparar os dois é injusto e descabido, pois ambos desempenham bem os seus respectivos papéis, dentro das respectivas propostas como obra fílmica.

Coringa, portanto, é o tipo de filme que pode agradar a diversos tipos de público. Mas se você espera um filme mais picotado, cheio de cenas de ação, bom, isso vai ser culpa apenas da sua expectativa. A obra passa longe de uma visão de blockbuster (mesmo sendo um), mas como já foi dito, o filme se apoia na construção de personagem e todos os ‘demônios’ que cercam a vida de Fleck dentro do contexto caótico em que ele vive.

Confira o trailer abaixo.

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