Spotlight, Pierre Bourdieu e os diálogos possíveis

O Jornalismo é uma área profissional autônoma e muito diversificada. Através dele, pode-se redigir matérias e noticiar reportagens sobre uma gama de assuntos, tais como: política, fatos criminais, cultura, ciência, religião. A propósito, a junção criminologia-religiosidade soa muito divergente, e todos os líderes espirituais possuem posturas que coincidem com o propósito piedoso de santidade e salvação. Certo? Errado! Spotlight – Segredos Revelados é a prova cinematográfica disso.

Baseado em fatos reais e vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2016 com nota 93 estabelecida pelo Metacritic, o longa se desenrola em Boston, Massachusetts, logo no início do século XXI, e retrata a história de um grupo com quatro jornalistas (Michael Rezendes, Sacha Pfeiffer e Matty Carroll, chefiados por Walter Robinson) seguidores da linha investigativa em um jornal local, intitulado como “The Boston Globe”, e investigam numerosos casos de pedofilia cometidos por padres, mas que foram acobertados pela Igreja Católica com a ajuda de outras instituições, permitindo ao espectador acompanhar toda a narrativa da descoberta dos fatos.

É possível fazer, inclusive, um paralelo entre as exposições representadas em Spotlight com o que Pierre Bourdieu, sociólogo francês, discorre a cerca da influência que o Jornalismo exerce sobre determinados campos e habitus deste. Para Bourdieu (1997, p. 102), “o campo jornalístico impõe sobre os diferentes campos de produção cultural um conjunto de efeitos que estão ligados, em sua forma e sua eficácia, à sua estrutura própria”. Isto quer dizer que os mecanismos do campo jornalístico e seus efeitos se estruturam por influências externas e internas. Mas voltemos ao filme.

Spotilight — Segredos Revelados. Foto: Internet/Divulgação/Reprodução.

Com um elenco de peso — Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Brian d’Arcy James e Michael Keaton –, a trama é apresentada com vitalidade nas interpretações somada à trilha sonora e à fotografia que caracterizam toda a atmosfera do enredo e dos acontecimentos. Em comparativo com 13 Reasons Why (também encabeçado por Tom McCarthy na direção de dois episódios), Spotlight propõe o desenrolar da “ficção” de um modo minucioso, porém muito mais ágil do que a história adaptada de um livro para a Netflix e protagonizada pela personagem Hannah Baker.

O filme também teve adaptação literária, e pode-se defini-lo como uma obra que denuncia assuntos de extrema importância social perpassando sobre a degeneração de um clero, uma gestão educacional e um judiciário – incluindo advogados, promotores e juízes – capazes de influenciar, através do poder exercido por eles, até mesmo a opinião pública. Bourdieu (1973) diz que “o equivalente atual de ‘Deus está conosco’ é ‘a opinião pública está conosco’.’’ É assim que as coisas funcionam.

O número de pessoas que se importaram com os casos de pedofilia cometidos por padres justamente pelo abafamento que estes poderes trabalharam para que os fatos não recebessem tamanha atenção, sobretudo pelo fato de ser uma população em sua maioria católica, com a justificativa de não manchar a imagem da Santa Igreja e da pequena cidade de Boston, foi muito menor se compararmos com o que aconteceu na mesma época: o atentado de 11 de setembro em Nova Iorque; deixando o caso engavetado por um certo tempo de forma com que a atenção fosse voltada para o ocorrido com o World Trade Center.

Com o surgimento do novo editor-chefe do The Boston Globe, ficou explícito que a imparcialidade, apesar de ser um mito no meio jornalístico, foi o ponto de partida crucial para o andamento das investigações – uma vez que o jornal havia recebido diversos materiais que serviriam posteriormente para a apuração dos casos ocorridos.

Em contrapartida, um dos jornalistas, já com alguns documentos nos quais ele julgava serem suficientemente comprovados, perseverava na publicação da notícia temendo ao furo de reportagem por outro concorrente, pondo em jogo a credibilidade do jornal em que trabalhara, causando, até mesmo, um clima desconfortável em uma das dezenas de reuniões em que os jornalistas tiveram. Anteriormente, Bourdieu nos alertou sobre isso:

“Inscrita na estrutura e nos mecanismos do campo, a concorrência pela prioridade atrai e favorece os agentes dotados de disposições profissionais que tendem a colocar toda a prática jornalística sob o signo da velocidade (ou da precipitação) e da renovação permanente”. (BOURDIEU, 1997, p. 107)

Conduzindo para o âmbito nacional, devido ao fato do jornal ter evidenciado nos créditos cidades brasileiras nas quais ocorreu o mesmo que em Boston, Spotlight – Segredos Revelados, além de tudo o que já foi mencionado, também nos sugere a seguinte questão: há ausência de apuração por parte do jornalismo brasileiro sobre a pedofilia existente no país da mesma forma em que se apura a corrupção de determinados partidos? Será que o Brasil precisa de uma equipe como a do Boston Globe para a resolução de determinados casos? Apesar disso, é compreensível a existência de estruturas necessárias para a manutenção destes profissionais, sobretudo por fatores econômicos e, principalmente, políticos e religiosos, que reforçam alianças visando seus próprios interesses.

Dado o exposto, Spotlight consegue compreender o quanto o jornalismo é estimulado por conveniências corporativas. O cinema também. E entra para o time de “filmes que morrem na praia” justamente por se referir a assuntos que envolvem e atormentam a “dignidade” dessas corporações. O filme é, realmente, digno de Oscar, não por se tratar de histórias reais, mas por ser realmente bom em toda sua estrutura técnica e emocional.