O Lagosta critica a imposição do casamento e a hipocrisia nas relações

Com ritmo instável e enredo ilógico, o longa narra um futuro distópico em que estar solteiro é mais que uma proibição.

Yorgos Lanthimos tem criado um perfil de ficções cada vez mais inesperadas. Imagine você viver numa sociedade cujo governo te recruta em um hotel a beira-mar com um prazo de 45 dias para você entrar em um relacionamento com alguém. Do contrário, será transformado em um animal de sua preferência. É nessa “coerência” que se desenvolve a história de David (Colin Farrell), um arquiteto de meia-idade abandonado pela esposa que se apaixonou por outro homem.

O Lagosta tem uma premissa surpreendente que subverte os contos de fadas tradicionais com regras arbitrárias, onde até masturbar-se está suscetível à punição. Mas Lanthimos vai além: no primeiro ato, anarquiza a ideia romântica transformando o amor em algo mesquinha, e a magia em uma prática grotesca. No longa, ele mais uma vez usa uma moderada edição e entrega diálogos diretos para tornar a surrealidade em algo real.

Quando perguntado sobre qual animal gostaria de se transformar caso a tentativa falhasse, o protagonista responde que gostaria de ser uma lagosta — o que simbolizaria o livre arbítrio e a nossa capacidade de fazer escolhas. A justificativa? Elas são longínquas e permanentemente férteis, é por isso que o crustáceo dá título ao filme. Um dos pontos surpreendentes é o relacionamento entre os personagens de Colin Farrell (Animais Fantásticos e Onde Habitam, 2016) e Rachel Weisz (A Favorita, 2018) que surge no segundo ato de maneira bastante singela e verdadeira.

Entretanto, David nos é apresentado como um rapaz passivo. Ele está mais preocupado inicialmente em preservar sua vida sexual do que em protestar contra uma espécie de resort que controla e perturba a dignidade humana. Mas isso muda quando a voz de Weisz sai da narração para dar vivacidade à Mulher de Visão Curta, sua personagem. É por ela que o futuro crustáceo se apaixona, afinal, os dois são míopes.

Colin Farrell e Rachel Weisz em cena do filme “O Lagosta”, de Yorgos Lanthimos, 2015.

No resort, cada habitante procura uma pessoa com as mesmas características que eles próprios possuem. Uma clara crítica à nossa busca por aqueles parecidos com nós mesmos. Isso também satiriza os algoritmos de compatibilidade dos sites e aplicativos de namoro, como Tinder e o ParPerfeito. Quando os personagens fingem afinidades para se conectarem entre si, incluindo David simulando sociopatia para impressionar a Mulher Sem Coração (Angeliki Papoulia), O Lagosta se torna ainda mais um indiciamento de pessoas que se desfazem de si para impressionar outras.

A instabilidade do argumento talvez possa representar a maneira pela qual os relacionamentos caminham. O importante aqui é a ironia, atestada pela trilha sonora, que se faz à imposição social e capitalista de que as pessoas só podem ser felizes caso se relacionem com outra pessoa. Não importa o quão fria e problemática essa relação seja, ter um filho resolverá tudo (isso é realmente dito no filme).

Não obstante o fato de O Lagosta ser sobre a maneira pela qual a sociedade enxerga pares românticos como um estado padrão, o longa desenha, ao dar enfoque no segundo ato, como as pessoas solteiras são tratadas socialmente, onde suas vidas são menos significativas — até encontrarem um parceiro. Além disso, a película também enfatiza um mundo em que ou se é isso ou se é aquilo. Esta não é uma sociedade de nuances. Tudo é feito para ser preto e branco: os personagens estão em um relacionamento ou são infelizes, são complacentes ou brutalizados, são homo ou são heterossexuais.

O longa também toca na superficialidade das relações. Uma sátira ao modo como expressamos nossos sentimentos e criamos conexões plásticas com eles. É um olhar cínico não apenas para a sociedade e suas estruturas e restrições, mas para o próprio amor. O público sabe o que esperar de histórias de amor e contos de fadas. Essa não está disposta a mostrar algo tão simples como um final feliz para sempre.

Contudo, O Lagosta nos deixa uma questão: os relacionamentos são construtos sociais ou partem da nossa necessidade individual em desenvolver genuinamente sentimentos com outros? Confira no trailer abaixo.

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