Elisa e Marcela narra com poesia uma perseverante história de amor

Quando o poema “Encontro”, de Audre Lorde, foi publicado na terceira edição da Sinister Wisdom, uma das mais antigas revistas literárias feitas por e para lésbicas, pudemos ter acesso a versos que descrevem o amor de maneira intensa e celebrativa. Lorde quebrava um silêncio que ainda precisa ser superado, e o longa Elisa e Marcela (2019) segue o exemplo ao relatar um poético e doloroso romance.

Tais como as palavras vívidas da escritora norte-americana, o filme mostra o encontro entre um mundo e outro. Somos introduzidos aos questionamentos de uma das personagens, cuja história é ambientada na Espanha do século XIX. Ocorre em 1898, quando Elisa Sánchez e Marcela Gracia se conhecem ainda adolescentes na escola de freiras que estudavam.

A aproximação mútua resultou em uma paixão sublime e voraz, alvo de perseguições e rechaçamento social, o que fez o casal enxergar como única alternativa o fingimento. Elisa se submeteu a uma identidade masculina para vivenciar o romance, reforçando a problemática de que nossa sociedade só legitima o amor romântico quando ele existe entre um homem e uma mulher.

Enfrentam juntas a ira do pai de Marcela, o ódio das pessoas ao redor, o sensacionalismo da imprensa, e o preconceito social. Mas tudo isso prova que mesmo após se separarem ao residirem uma longe da outra, o amor permaneceu firme e foi o suficiente para resistirem às circunstâncias promovidas pelo conservadorismo.

O longa escancara que tudo aquilo que foge da norma é mantido como imoral e pecaminoso, ainda mais tratando-se de um relacionamento entre duas mulheres. Totalmente em preto e branco, o ritmo do romance é lento e se estende com quase duas horas de duração. É um retrato cruel do que a comunidade LGBTQI+ infelizmente está sujeita a enfrentar. Sem dúvidas, o relato verídico faz do sublime um elemento estético de construção audiovisual.

As atrizes Natalia de Molina (Elisa) e Greta Fernández (Marcela) para o filme  “Elisa e Marcela”, Netflix, 2019. Foto: Zoe Sala.

A história baseada em fatos reais relata o primeiro casamento homossexual realizado pela Igreja Católica, que, até hoje não foi invalidado pela instituição. Apesar de se saber pouco com o final que Isabel Coixet nos entrega, a trama toca no íntimo com tanta sensibilidade e sutileza com que aborda o amor.

A alegoria com o polvo que as duas utilizam em um momento íntimo demonstra a fragilidade com que a população recebeu a relação amorosa. Assim como o animal marinho, a sociedade as envolve em tentáculos de preconceito, intolerância e ódio — traços fortes de homofobia muito bem representados, por sinal.

Um romance emocionante que relata a trajetória de um casal lésbico na luta pela legitimação de um amor. O primeiro casamento registrado pela Igreja Católica de forma inusitada, mas necessária para a época em que aquela história era vista com repulsa e negação. Um casório que, até hoje, não foi cancelado.

Além de todo esse enredo de perseverança, o longa ainda nos apresenta um desfecho um pouco previsível, mas necessário para movimentar a ficção que já é por si só um pouco pacata. Culpa dos diálogos excessivos, da escassez de trilha sonora e do roteiro arrastado escrito em parceria entre Coixet e Narciso de Gabriel, autor do livro Elisa y Marcela – Más Allá de los Hombres (“Elisa e Marcela – Além dos Homens”).

Todavia, a produção é bela, mas peca nas lacunas deixadas por falta de informações sobre as personagens reais. Isto não permite um aprofundamento maior no que as movimentam, correndo o risco de caracterizar a obra como um filme sobre duas mulheres audaciosas. E pronto.

A fotografia não apenas situa o período histórico, mas desbota uma narrativa colorida que ilustra um problema grave. E apesar de alguns erros básicos de continuidade, o longa continua digno, principalmente com as personagens ganhando vida nos corpos de Greta Fernández e Natalia de Molina. As duas protagonizam as sentimentalidades e os dramas vivenciados pelo casal.

Embora Coixet não tenha aproveitado a história real em sua magnitude, a trama desenvolvida em quase duas horas de duração prova que nem todos ainda possuem o direito de amar e serem amados plenamente. Elisa e Marcela segue sendo uma poesia em formato audiovisual, pois nos envolve ao se fazer necessária em tempos de cóleras. Confira no trailer abaixo.

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